quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O amor de Adalgisa



Uma paixão sem limites. Um amor impossível. O caso de Adalgisa Maria João e Ricardo Coração de Leão... Ele... astro de circo cuja fama ultrapassou as fronteiras circenses... popstar que teve seu auge... e depois... a decadência... Distribuiu autógrafos pelo mundo. Fez sucesso entre as crianças e os intelectuais. Era cômico e melancólico; hilário e dramático. De manhã tomava seu café já pensando em seu número, espetáculo que seria apresentado na noite para jovens e velhos ansiosos por risos e lágrimas. Tomava seu café no clima ameno das manhãs e, em cada manhã, uma nova cidade. Lia livros de contos. Gostava de romances, poesias, peças teatrais, mas preferia os contos... breves como o estalido de um beijo. Ricardo Coração de Leão não era domado e nem saltava por entre círculos de fogo.

"Sua figura era inconfundível". Os trapezistas (a família Nerino, com quem passei horas a fio conversando) lembram bem da imagem de Ricardo: "adorava as manhãs... com sua juba atrapalhada, sentava em uma cadeirinha sobre a grama, pernas cruzadas, óculos redondos, lendo Kant... está gravado em minha memória... Gostava muito dele..."

Sim. Ricardo Coração de Leão era míope. Sua dificuldade em enxergar, no entanto, não impediu que... olhando para a platéia durante uma de suas apresentações... seus olhos tocassem o olhar de Adalgisa. Foi amor à primeira vista.

Adalgisa... 17 anos. Oprimida por um pai tirano. Tentou fugir de casa. Tentou suicidar. Sua alma era livre como o canto de um canário... acabaria sufocada pelas grades do patriarcado. Tão bela... tão alegre... vivia triste e cabisbaixa... amuada.. acabaria sufocada pelas grades do patriarcado não fosse...

Dia 12 de agosto de 1973. Pernambuco. A cidade de Triunfo comemorava a chegada do circo! As crianças na rua pulavam gritavam e dançavam a música tocada pelos foliões nos carros alegóricos - havia trompete, tuba, trombone de vara, tambores, fanfarra! Era contagiante! Avestruzes, elefantes, palhaços, trapezistas, mágicos! Todos dançavam! Inclusive nosso herói que lá estava... fazendo a festa e rodeado por meninos e meninas, adultos e jovens de cabelos brancos!
Todos iriam ao circo naquele dia. Menos Adalgisa. Proibida pelo pai.

Não suportaria ver a própria filha naquele antro de perdição e fantasia. E se ela o abandonasse?, fugisse assim como fizera sua mãe, apaixonada pelo mágico do último circo que na cidade estivera. Não! Adalgisa, não!
Ela caiu em prantos e, mergulhada no travesseiro molhado de soluços, decidiu que ou se afogaria no mar ou então... nada... não conseguia pensar em nada mais.

Todavia, como sabeis, ela estava em meio à multidão. Alguma coisa aconteceu. Algo que desconheço deu-lhe forças para fugir... talvez... o sangue circense corria em tuas veias...
E... no momento em que Ricardo, de cima do picadeiro, vestido de príncipe, carregava exultante uma caveira humana em tuas mãos dizendo ser ou não ser, eis a questão!, seus olhos miraram fundo a platéia e avistaram a mais bela criatura jamais vista em tempo algum... Adalgisa...

Viveram juntos durante muito tempo. O felino ensinou à amada as artes do trapézio. Completamente apaixonados, estiveram nos quatro cantos do mundo. Fizeram sucesso! Se amaram! Mas não... não foram felizes para sempre.
Em Barcelona, Ricardo Coração de Leão percebeu os primeiros sintomas de uma doença degenerativa que seria o fim de sua carreira. No contexto da Guerra Fria, com a vista cada vez mais comprometida, seu circo perdeu espaço no mercado que foi se tornando refém do modelo capitalista de consumo... a ditadura do entretenimento... surgiu o Cirque du Soleil em 1984 e... enfim... vislumbrou a própria decadência... ficou cego e foi largado na rua como um cão sem dono. Apesar de cego, enxergava longe. Escreveu um livro com a ajuda de Adalgisa. Nunca foi publicado.


Ela estava com ele o tempo todo. Largou o circo para ganhar a vida ao seu lado. Entretato, o vazio de um gênio incompreendido nunca é preenchido. Vivia em completa melancolia. Ela conseguiu trabalho como garçonete em um restaurante italiano tendo em vista a incapacidade do marido. Casou-se com o chef da trattoria depois da morte inevitável de Ricardo cujo corpo definhava a cada minuto. Foi tudo muito rápido. Antes de se enamorar com o cozinheiro, contudo, sua barriga já anunciava uma nova vida... fruto desse amor impossível: Leo Biagio.

Muito prazer. Eis aqui quem vos fala. Nunca conheci meu pai. Meu verdadeiro pai.

Fui criado em Nápoles... inserido na cultura italiana... à base de fartura, macarrão, vinho e muita música. Desde pequeno era motivo de chacota na escola. Sempre fui um tanto... diferente. Bastante diferente de todos os meus colegas que zombavam de minha aparência. Nunca pareci humano. Sou meio homem... meio... avestruz. Taí uma coisa que nunca entendi, minha aparência de avestruz...

6 comentários:

  1. Cara!... Bom... Muito bom... Doido de mais!!!!
    Tô pensando até agora... Muito doido...

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  2. Oi, Pedrão!
    Não sabia que você tinha essa facilidade prá escrever. Valeu!

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  3. Que bacana! Gostei muito. Achei divertido....rsrs.
    Adorei como você trabalhou a questão dos gêneros feminino e do masculino para compor o amor da personagem Adalgisa. Sendo o masculino um leão artista, você aguçou minha curiosidade sobre como essa dimensão masculina se encontra com o sentimento do amor. Parabéns! Beijoca

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  4. faltou machismo, na minha opinião

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  5. Bom é pouco. É divertido e envolvente. Melhor assim. :)

    Beijos.

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